PENSAMENTO 2

Aprender e desaprender são duas faces da mesma moeda assim como o são acertar e errar.
                                              Nahman Armony 

MASCULINO E FEMININO -- EVOLUÇÕES


Não estamos demasiado distantes do tempo em que era comum desdenhar dos sentimentos femininos com uma frase depreciativa: “É coisa de mulher.” Esta postura hostil visava não só manter o poder do homem sobre o chamado “sexo frágil”, como também reprimir o feminino dentro do próprio homem. A beleza das uniões atuais está na possibilidade do ajuste sem submissão, ambos aptos a compreender e experimentar o sentimento do outro.
No passado, os papéis do homem e da mulher eram bem definidos. O homem cuidava do sustento da casa, indo à rua para trabalhar, enquanto a mulher se ocupava do lar e das crianças. Pensava-se que o homem, para vencer, tinha de ser objetivo, não se deixando atrapalhar por sentimentos e sentimentalismos. A sensibilidade e a afetividade eram para ser exercidas pela mulher no trato com as crianças e o arranjo do lar. Mas, ao mesmo tempo em que a sociedade entregava à guarda da mulher os aspectos femininos do humano, dela debochava, desvalorizava-a. “São coisas de mulher”, dizia-se com desdém, quando a mulher manifestava sentimentos. Tal ataque à sua subjetividade tinha a finalidade de combater o feminino existente em o Homem. Confinava-se a sensibilidade feminina às mulheres e desvalorizava-se tal sensibilidade; o Homem reprimia o seu feminino projetando-o na Mulher e atacando-o. Ao mesmo tempo em que o atacava com o intuito de manter um masculino forte, fazia do feminino um depósito do Bem, da afetividade, do cuidado com as outras pessoas.
Os tempos mudaram. Homens e mulheres se aproximaram no pensamento e na afetividade. Ambos permitem que o feminino e o masculino se manifestem em pensamentos, sentimentos e ações. Mas também há aspectos irredutíveis diferenciando os sexos. O aspecto físico é evidente. O funcional está na gravidez e na amamentação. O psíquico talvez esteja nos sentimentos maternais que a gravidez e a amamentação despertam e que só parcialmente são acessíveis aos homens.
Saindo-se do campo do extremismo irredutível, homens e mulheres podem compreender-se mutuamente, pois ambos possuem em si o masculino e o feminino. O hemisfério esquerdo, da racionalidade, e o direito, da sensibilidade são utilizados por ambos os gêneros, mas predominando o uso do esquerdo pelo homem e do direito pela mulher; hormônios masculinos e femininos circulam nos dois, embora em quantidades diferentes; meninos e meninas se identificam tanto com o pai quanto com a mãe, porém em proporções e intensidades diversas. Homens e mulheres têm, pois, a capacidade de compreenderem-se, porque aceitam em si o masculino e o feminino.
A maior parte das diferenças a negociar entre os dois sexos refere-se às proporções desiguais do masculino e do feminino que os constituem. (Vale assinalar que as atuais cirurgias e tratamentos hormonais questionam essa irredutibilidade. Mas não é disso que trata este texto.)
Presumamos agora uma situação de conflito. A esposa quer levar para o novo lar — um pequeno apartamento — uma peça qualquer de estimação. Imaginemos uma peça grande, como um armário. O móvel tomaria muito espaço e tornaria a morada desconfortável. Se estivéssemos no regime patriarcal, o desejo da mulher seria considerado “frescura” e não haveria negociação. Prevaleceria o pensamento objetivo masculino, porque a sociedade desconsiderava o aspecto subjetivo (afeto, beleza, simbolismo inconsciente) da vida das pessoas. Hoje, com a ascensão e a valorização social do feminino, certamente haveria uma negociação entre o subjetivo feminino e o objetivo masculino. A possibilidade de levar o armário não seria logo descartada, mas um diálogo se estabeleceria entre o feminino e o masculino de ambos. O que poderia perturbar a negociação seria a lembrança inconsciente dos tempos de submissão da mulher e da glorificação do homem. Uma nostalgia inconsciente dos tempos de mando talvez levasse o homem a adotar uma posição irredutível, assim como a mulher poderia tender para o irredutível por ser portadora das lembranças conscientes e inconscientes da antiga sujeição ao varão. A percepção consciente desses velhos desejos e receios facilitaria o entendimento entre homens e mulheres. E isso se torna tanto mais fácil quanto mais o homem aceita o seu lado feminino e a mulher, o seu lado masculino.
                                                        Nahman Armony
                         Primeira publicação na revista CARAS



A COMEMORAÇÃO

Prepara-se o poeta para a grande noite retumbante
Capricha nas linhas, inflexões, masca palavras e preces
Imagina Maracanã dos Deuses jogando Garrincha Gol!
A força da Bola explodindo em multifonemas satíricos
Acústicas orelhas voltando-se para o cogumelo irrestrito
A plateia delirante em sustenidos de orgasmos globais.

Abre-se o pano; e na boca iluminada da peraltice 
Assomam dentes de leite, escolapares alarido franco.
O poeta curva-se reverente por sobre o papel...crepom de                                                                                          aniversários
De sua boca saltam másculas estocadas molhados gozos espoletas                                                                                                        mil
Escândalo, Horror, Perdição, o que meus filhos fazem nesta                                                                                                  escola?
As palavras duras, tesas, eretas aterrissam moles, xoxas, brochas                                                                                             no  tempo
Deus altiplano gargalha bramas flagrantes frangalhos
O mundo foi feito em apenas seis dias poiso sétimo é de descanso
                      
                                                                     Eta mundo imperfeito
                    
                                 Nahman Armony

                                                                                                   

NEUROSE, BORDERLINE, HOMEM TRANSICIONAL

O BORDERLINE CRIATIVO: SUJEITO DE UM MUNDO EM TRANSFORMAÇÃO.
        Até há pouco tempo eu considerava o borderline o protótipo de homem contemporâneo. E ainda o considero. Mas o mundo está em um processo acelerado de transformações. Desconfio que uma outra subjetividade esteja surgindo. No consultório recebo neuróticos (poucos), borderlines (a maioria) e aqueles que tenho chamado de ‘homens transicionais’ (raros). Dando uma rápida situada direi que 1- os neuróticos têm como principal processo psíquico a repressão/recalque, especialmente na modalidade maligna ao mesmo tempo estruturante e gerador de sintomas, 2- os borderlines cujas principais características são a porosidade, a divisão, a onipotência mitigada, a deficiência de recalques benigno e maligno, 3- os transicionais com as mesmas características dos borderlines com o importante acréscimo da ação do recalque benigno. No que diz respeita à repressão/recalque são três modos de relacionamento: neurótico-regras rígidas; borderline-permissividade; homem transicional-recalque benigno. Os novos modos de criação/educação protege a criança em desenvolvimento da insensibilidade desatenta ou ingênua dos adultos e de seus ataques violentos. Com isso (e por outras razões também) temos um superego mais companheiro que assustador. O lugar até então ocupado pelos excessos quantitativos e qualitativos da repressão abrem espaço para que surjam os Homens Transicionais: porosidade, divisão, onipotência mitigada, recalque benigno.

                                        Nahman Armony      

TECNOLOGIA E CONFIGURAÇÕES FAMILIARES


Antigamente o pai saía para trabalhar e a mãe ficava cuidando do lar. Suas tarefas se resumiam, basicamente, a atenção à casa e aos filhos. Estes se beneficiavam de uma atenção constante. Embora o pai estivesse ausente de oito a dez horas por dia (estou falando dos bons tempos em que as pessoas não se matavam de trabalhar), sua presença ficava assegurada pelo contato permanente com a mãe, que lhe fazia um relatório no final do dia. Havia uma estabilidade que fazia da família um ambiente de acolhimento e segurança. Nessa configuração de antanho o pai era a figura dominante, o patriarca, aquele que tinha direito (exagerando um pouco as coisas, é claro) de vida e de morte sobre a esposa e os filhos. A mulher, submissa, acatava, por mais que lhe custasse em sofrimento e saúde, as determinações do marido. Certamente não era um mundo ideal, pois havia muitos não-ditos, muita repressão e conseqüentemente muita neurose. O que se ganhava era previsibilidade e estabilidade.
Mas os tempos mudaram. As mulheres conquistaram mais independência e sua voz se fez presente. Se paga, porém, o preço de uma menor estabilidade e previsibilidade. Tanto o pai quanto a mãe se ausentam do lar para trabalhar e variados arranjos têm de ser feitos para atender às necessidades e preencher o tempo dos filhos. O cotidiano transformou-se numa roda-viva. Os pais, inseguros quanto ao futuro, entopem as crianças de cursos e entram em competição desenfreada com seus colegas de trabalho. Sobrecarregados de tarefas, chegam em casa esgotados, ansiosos, mal-humorados, com os filhos já dormindo e o parceiro também estafado. Todos — homem, mulher, crianças e sociedade — ficam prejudicados. A loucura provocada pelo excesso de trabalho — que mereceu o nome de síndrome de burnout, expressão em inglês para aquilo que deixa de funcionar por falta de energia — começa a ser preocupação dos estudiosos e foi abordada, recentemente, em São Paulo, no II Congresso Brasileiro da Família. Está claro que para vencer o problema é preciso transformar a mentalidade corrente. O estímulo ao consumo provoca uma avidez que reforça a enorme importância dada à capacidade de ganhar dinheiro. Assim, o trabalho é posto em primeiro lugar — e esse primeiro lugar facilmente se transforma num lugar absolutamente dominante. Contribui para tal distorção o abissal valor que se dá ao sucesso e o conseqüente desdém por aqueles que não exibem sinais de riqueza. A palavra sucesso, na verdade, transformou-se em uma estrela-guia que cega as pessoas para as amenidades da vida, tão necessárias ao equilíbrio emocional. Alcançá-lo exige uma aplicação que devora todo o tempo que poderia ser dedicado ao amor, ao lazer, à família. Aquele que escolhe trabalhar menos, ganhar menos e se beneficiar de uma vida intelectual, muscular e afetiva mais rica é tido como perdedor (looser). A estabilidade da família, afetada por essa maneira de viver é agravada pela dificuldade em assimilar a grande mudança sociológica provocada pelas conquistas da mulher. A estabilidade baseada no sacrifício do contingente feminino da sociedade está em extinção. A mulher, hoje, exige ser ouvida e respeitada — e as diferenças devem ser negociadas de igual para igual nos relacionamentos. Mesmo quando a paixão passa por cima das dificuldades provocadas por essa mudança, em algum momento elas aparecem e precisam ser enfrentadas. O medo do enfrentamento pode reforçar o apego ao trabalho duro e sem tréguas — por parte de ambos os sexos —, fortalecendo a aderência da pessoa ao sucesso e afastando-a do bálsamo proporcionado pela vida amorosa, estética e lúdica. Indivíduos e sociedade estão sofrendo nesse período de transição que estamos vivendo. Quanto maior a abertura para o novo menor e mais suportável será o sofrimento.

                        Nahman Armony      
Primeira publicação na revista CARAS




APÊNDICE

Há alguns anos atrás escrevi a crônica acima. Nela eu apontava para um problema, mas não apresentava nenhuma sugestão para a sua resolução. E a resolução está aparecendo por si mesma, fruto de novas tecnologias. Hoje em dia há profissões que podem ser exercidas no clima ameno do lar, na presença de esposa e filhos, através da internet. As grandes companhias começam a valorizar o lazer, pois o excesso de trabalho resulta em síndromes que exigem repouso e portanto perdas financeiras. Paralelamente, por um ou outro motivo, existe uma maior consideração com o indivíduo singular seja por uma mudança de mentalidade, seja pela presença de ONGs que, até onde podem, monitoram a relação trabalho-homem-excesso-lazer. Não estou falando de nenhum paraíso, pois temos exemplos recentes de desconsideração de grandes Companhias na relação aos seus empregados. Mas minha observação não estatística, ou melhor, minha estatística inconsciente que tantas vezes me ajudou, me diz que estamos no caminho da melhoria da fortuna humana. Do lado positivo temos o exemplo dos países nórdicos e do lado negativo temos o semi-abandono das pessoas que sofreram o tragédia da Mariana. Mas a contagem final enviada pelo meu inconsciente aponta para o predomínio do progresso humanista.

                                               Nahman Armony  T

LUCÍLIA, LUCI, LUA ...

Lucília, Lúcia, Lia, Lua, Luna
Tantos nomes em um só
Tantas mulheres numa única
Mas acima de tudo

                    A AMIGA
Que busca, consola, espera
Que cobre as chagas com sua alegria de viver

E dentro da amiga A IRMÃ
Solidária, ativa, resoluta, esperta, solucionadora

Mas também a MULHER
Dois fachos penetrantes de incendiária luz
Rompendo barreiras de matéria empedernida
Luz, lucília, lúcia, lina, luna
Luzeiro irradiante
Centro de galáxias em enfeitiçados movimentos

E ainda a MÃE
Aquela que tudo vê e sabe
De tudo e de todos
Controla e resolve
Em seu infinito e absorvente amor

Tudo isto é vocês
Lucília, lúcia, luci, lua, luna
Muitas vezes sol de incandescente luminosidade
Lucília, luci, lucidez cortante
                                  cantante
                    Construção.